2ª Jornadas de Património de Estarreja: Castro de Salreu tem mais por revelar

quarta, 28 de setembro 2011

Confirma-se “a ocupação proto-histórica do Castro de Salreu, em termos de espólio e por alguns vestígios de estruturas”. A conclusão foi adiantada por António Manuel Silva, do Centro de Arqueologia de Arouca, durante as 2ª Jornadas de História e Património de Estarreja, que decorreram na última sexta-feira, na Biblioteca Municipal, com a presença de quase uma centena de participantes.

Calcula-se que o povoado, situado numa colina de média altitude circundada a Norte e a Poente pelo rio Antuã, tenha sido ocupado entre os anos “2500 e 2000 a.C., até à chegada dos Romanos a esta região”, revelou o investigador durante a apresentação dos resultados preliminares da primeira campanha de escavações arqueológicas no Castro de Salreu. Foi escavada uma superfície de 26m2, distribuída por 5 áreas de sondagem, localizadas quer na plataforma superior do sítio arqueológico, quer num dos taludes situados a Norte, definindo uma plataforma voltada ao rio.

A intervenção “confirmou totalmente o interesse e potencial arqueológico do sítio, desde logo pela recuperação de cerca de 2300 fragmentos de cerâmica da Idade do Ferro, para além de alguns objectos em pedra, restos de utensílios mecânicos e duas contas de colar em pasta vítrea, de procedência mediterrânica”.

António Manuel Silva considera que “a continuidade se afigura perfeitamente justificada” e os resultados ainda preliminares “poderão trazer dados de muito interesse para esta região”.

No talude Norte encontraram-se vestígios de algumas estruturas de delimitação do povoado, que não seria feita por uma “muralha monumental”, uma vez que nos “castros mais antigos, porventura haveria uma estrutura de contenção para condicionar o espaço habitado ou guardar o gado”. Na zona habitacional “apareceu um palmo de um piso em argila no limite da escavação”. Resultados que indiciam que “possam vir a encontrar-se estruturas melhores conservadas, como muros de habitações”, afirmou o investigador.

A intervenção, levada a cabo no Verão pelo Centro de Arqueologia de Arouca com o apoio financeiro e logístico da Câmara Municipal de Estarreja, envolveu cerca de 15 colaboradores, quer profissionais, quer jovens estudantes voluntários. O estudo está inserido num projecto de investigação dimensionado para a bacia do rio Antuã, envolvendo outros sítios arqueológicos, e com uma duração de 4 anos.

As Jornadas do Património pretendem sensibilizar para a riqueza patrimonial do Concelho de Estarreja, nas suas múltiplas vertentes, bem como para a sua preservação. Entre os oradores esteve José Mattoso, autor de uma extensa bibliografia e especialista em História Medieval portuguesa. O historiador abordou o tema “O Património e o seu papel cultural no contexto local e regional”, na abertura das Jornadas.

Com esta iniciativa o Município de Estarreja associou-se também às comemorações das Jornadas Europeias do Património 2011, este ano subordinadas ao tema “Património e Paisagem Urbana”, promovidas pelo IGESPAR (Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico).

Reportagens Localvisão
http://videos.sapo.pt/FHMQiQkPPdHWZktVjilU
http://videos.sapo.pt/ZSo2OVEYHkdZuh17YTJe


RESUMO DAS INTERVENÇÕES

O Património e o seu papel no contexto local e regional [José Mattoso]

Noção de Património cultural. O problema do valor patrimonial. A responsabilidade pela gestão do Património. A relação entre o património cultural e a identidade colectiva. Inovações recentes das técnicas de preservação e dos processos de valorização. Modalidades de valorização do património cultural numa perspectiva evolutiva. Sensibilidade pública quanto ao acesso aos bens culturais do património.

Património Imaterial – um conceito, uma realidade [Rosa Maria Rodrigues]

Noção de Património Imaterial. Os diferentes domínios em que este se manifesta e a sua forma de afirmação e preservação identitária. Como manifestação de excelência e porque preservado de geração em geração de uma forma quase sempre empírica, contribui inequivocamente para a transmissão de valores simbólicos que são apanágio de cada comunidade.

Regeneração urbana da Cidade de Estarreja [Adolfo Vidal]

Estratégia: afirmar a Cidade como um interface entre o espaço urbano consolidado e o espaço natural de usufruto público e um espaço de dinamização social (cultural e desportiva).

Objectivos do projecto: renovar e transformar a Cidade num espaço sustentável de referência, mantendo-a como área privilegiada de encontro e o centro das dinâmicas socioculturais e económicas do Município; valorizar as áreas de excelência urbana, como a frente ribeirinha e o centro tradicional da Cidade, permitindo uma qualificação do espaço público, a melhoria da mobilidade urbana, da qualidade ambiental e da vida das populações.

Números: Área de Intervenção: 117.168 m2 (11 ha)
Nº de projectos associados: 9
Valor do investimento elegível: 1.345.181,76 €; tx de comparticipação FEDER: 85%

Arquitectura em Terra: alguns exemplos da freguesia de Beduído – estudo preliminar [Susana Themudo e Silva e Diana Cunha Santos]

O património histórico edificado pode e deve ser visto como um artefacto, na medida em que corresponde a uma construção humana feita e/ou transformada pelo Homem. Tal como define Leroi-Gourhan (1985), o artefacto percebe-se como o produto que é inscrito dentro dos seus usos e das suas utilizações, ou seja, um meio para atender as necessidades que são determinadas pela pessoa que o utiliza, não importando a sua função primeira. Deste modo, a arquitectura em terra surge como uma dessas evidências. Conhecida e utilizada desde a origem do homem e da sua consciência enquanto construtor, ela têm vindo, nas últimas décadas, a deixar de ser utilizada no nosso território, entrosando a perda do saber que a acompanha.

Em meados do séc. XX, arquitectos e antropólogos assinalaram esta técnica construtiva, contudo, as vicissitudes do desenvolvimento e as suas consequências têm vindo a desencadear o seu desaparecimento e destruição, o que suscitará uma lacuna na sua compreensão e estudo, sendo por isso a sua documentação e registo importante.

A prática da construção em terra em Portugal foi comum até relativamente pouco tempo, localizando-se sobretudo no sul do país e nas zonas litorais onde a pedra escasseava, pelo que as reminiscências destas construções na freguesia de Beduído, concelho de Estarreja, se assumem como um dos exemplares ainda preservados nesta parte do país, apesar do seu estado de conservação debilitado, em muito provocado pelo abandono que se verifica. Pelo que, alertar, sensibilizar, conservar, preservar e salvaguardar os exemplares que restam, deve ser uma medida a adoptar de modo em que percebendo o passado podemos e conseguimos melhorar o futuro.

A ocupação humana na região lagunar de Aveiro e a evolução do litoral [Paulo Morgado e Sónia Filipe]

A história da ocupação humana do espaço físico onde hoje se implanta a região lagunar de Aveiro, não poderá ser dissociada da alteração geomorfológica que os mecanismos geológicos provocaram ao longo dos tempos, bem como da própria acção humana sobre este território. Tanto os dados históricos como os dados do registo geológico mostram que a antiga linha de costa se localizava numa posição muito diferente da actual. Ao longo do tempo geológico são conhecidos episódios de períodos de temperaturas mais elevadas e outros de temperaturas mais baixas o que provocou uma alteração do nível do mar.

No auge da última grande glaciação, denominada na Europa como glaciação de Würm, ocorrida há cerca de 18 000 anos, o nível do mar terá descido entre 120-140 m relativamente ao nível actual, o que se traduziu num recuo da linha de costa de cerca de 50 km no litoral aveirense, o que significa dizer que o rio Vouga percorria esta distância acrescida até desaguar no mar. Com a subida da temperatura, a água retida nos gelos glaciares foi derretendo, provocando a consequente subida do nível do mar, tendo estabilizado nos níveis actuais entre 3000 e 6000 anos.

Pela altura da fundação da nossa nacionalidade, o mar banhava terras como Ovar, Estarreja, Aveiro, Ílhavo, Vagos e Mira. Nesta época, o rio Vouga teria a sua foz entre Cacia e Angeja. A alteração da linha de costa condicionou a evolução da ocupação humana deste espaço. Talvez este factor justifique o número reduzido de estações/sítios arqueológicos identificados até ao momento. Excepção ao que se refere à arqueologia subaquática. Por estes factores um arqueosítio, hipoteticamente encontrado na região lagunar ou junto ao actual litoral e datado de há cerca de 10 000 anos, na época da sua ocupação a linha de costa não se localizava na sua posição actual, mas sim muito mais longe (cc 20 km) e toda a interpretação terá de ser feita à luz deste facto. Por outro lado, podem existir sítios que foram ocupados no máximo da última glaciação e que actualmente se encontram em espaços marinhos.